Sunday, February 27, 2011

A um Beato

Lá vem você outra vez
com simbolos celeste
e gotas de sangue redentor.
Mas de onde vieram tais venenos?
Se não do corpo e da terra?

És tão piedoso,
comove se com minha dor.
Não estou infermo!
Devo muito, mas... E daí?
Estou vivo, vivendo...Sentindo

Se quer saber que sou,
minha alma é turva.
Nada verás além da superficie.
Ao menos que queira mergulhar fundo
e inda assim verás apenas com o tato,
o mais carnal sentido da carne.

profecia

As estrelas de Davi e de Hitler
Brilham no céu
É meia noite em nossa existência
E temos sede de relâmpagos.

Sei que ainda há de vim
Um verbo forte que, feito carne,
Posto entre a cruz e a espada
Levantará a foice e o martelo.

Desta vez será diferente
Marcharemos com todas as cores
Cantando a mesma canção

Desta vez será para sempre
Marcharemos de cabeça erguida
E com os pés no chão


CAMISETA AMARELA

"Uma coisa é um país
outra um ajuntamento"
(Afonso Romano de Santana)

Pobre camiseta amareladas,
um farrapo abandonado,
tocou numa camisa branca
queria ganhar um trocado
e deixou manchado
o belo e alvo pano
bruto como só é capaz
o cruel ser humano
um “não” esbravejou o rapaz
Sendo curto grosso e hostil
Só a camisa interessa
Ao bruto asno imbecil

A camisete amarela
Imergiu na multidão
Foi ouvi pra outras bandas
A mesma exclamação
Não sabem os homens de bens
Os donos da situação
Que a vitima de hoje
Amanhã pode ser o vilão

Ó patria armada, mãe hostil
Quem foi que viu
Que naquela camiseta amarela
Estava escrito Brasil?

Estava escrito brasil...
Mas escrito com graxa
Com graxa preta como a pele de que a vestia
E na palavra negra
Por ser negra tinha poesia
Dizia a mais puras das verdades
Verdade que o povo não ouvia
Gritava com o seu silencio
Que toda beleza e magia
Do esnobe boa vida
Que na vida só vadia
Custa caro, e muito
A quem pagar não devia
Custa a dor de esperar
Por um futuro que se distancia.

(Este poema foi escrito há muito tempo, no penúltimo ano do século XX. Foi concebido numa noite quando uma imagem tocou fundo em minha alma. Da concepção ao parto não foi mais que um dia, pois na tarde do dia seguinte terminei de parir esta cria.)


A Pátria

Hoje pode ser a penas pasto,
mas já foi mata do Carú,
lá onde deixei meu pequeno rastro
de conga azul.

Ao estrondo do tambor de couro
os pássaros se agitavam na mata escura.
E eu, pequeno patriota, feliz e orgulhoso
marchava em plena abertura

Íamos todos, saltando riachos,
seguindo a bandeira.
Eu no pilotão da escola,
meu pai de meião e chuteira
no pilotão da bola.

Outros sete de setembro passaram
alguns marchei de tênis,
nunca de chinelo
e sempre com ardente paixão
pelo parvilhão verde amarelo.

Mas hoje, irado poeta,
com uma alma violenta, inquieta,
quero a todo e a cada momento
soltar o meu verbo no vento.

Vou dizer aos quatro cantos
com todo o meu desencanto
que não irei mais a praça
fazer parte da faça,
da vivas a Brasil.
Não quero mais fazer pouco caso
do nosso esplicito descaso
ainda vivo e dois mil
não vou mais tanger nossa esperança
que sepre sera criança
em desfile estudantil.

Não vou mais aplaudir
nenhum palanque oficial
onde hienas arreganham os dentes
com discursos reticentes
sobre a merda nacional

Fodam-se os ufanistas
da patria armada, mãe hostil!
Sei que meus versos marginais
cairão sagrando num terreno baldio
(poema escrito em Capanema, as vésperas do dia da pátria do ano de 2000)


INSÔNIA


A noite... O tédio. A vida passando....

A areia do tempo escorrendo por entre os dedos.

O mundo sobre os ombros pesando

A insatisfação com sexo barato

(a custo de alguns drinks e a promessa de esquecimento).

A incompetência na realização do ato

Pois é necessário esquecer tudo e viver o momento

Mas não é fácil esquecer tudo e de mim mesmo também

E até que eu preciso de alguém.

Esquecer que neste corpo magro tem vida,

Espírito e tudo mais que eu não sei o que é.

Esquecer que nos outros, também tem.

Lembra apenas de respirar pausadamente

Entorpecido, com o coração batendo num compasso diferente.


Gostaria de não querer mais amar

De só querer a luxuria

De querer apenas me perder na noite e na vida

Com meu corpo ardendo de desejo e fúria

E como quem não tem saída

Ser levado na correnteza do asfalto

Pro meio de um oceano absurdo e sem limites

Náufrago, sem um pedaço de qualquer coisa pra me agarrar.

Mas neste instante os ruídos do silencio enchem minha alma de tedio

E a noite é uma companheira triste

Que fuma seu cigarro pra compensar o orgasmo que não sentiu.

Deixo ela quieta no seu canto, não vou perturbá-la com minha luxuria.


Queria mesmo era viver uma experiência mística,

Qual a uma gota d’agua confundindo-se com o um imenso oceano.

Ou talvez libertar minha alma que já não cabe neste corpo raquítico,

Mas nada disso eu posso neste instante.

Sei que é preciso cair nos braços de Morféu

E deixar que ele me transporte pelo caminho mais curto

Para um novo dia que já não é meu.

No entanto resisto bravamente pra espremer minha alma

Até cair no papel gotas amargas com cheiro de enxofre.


A liberdade me conduz madrugada adentro

Pra que o dia me veja como um sonambulo

E o sol da manhã me cobre o preço de ama-la tanto


Quanto do meu tempo é meu? Não sei...

Só sinto que o meu tempo é meu

Quanto percebo que estou vivo

E isso é tão angustiante

A existência é mesmo algo medonho,

Mas nela é preciso mergulhar fundo


Quero quatro pés redondos e de borracha

Pra girar pelo mundo

Quero a mão no volante

Correr em qualquer direção,

Nem preciso de muito dinheiro

Ou de qualquer companhia constante,

Bastaria uma transa em cada parada

E muito espaço pra ficar sozinho,

Contemplando a solidão da estrada

Como quem não tem nada a fazer

Ou de nada precisa pra viver.