Monday, October 04, 2010


UMA NOITE



Era a primeira quarta feira de agosto, os bares fechavam logo depois do futebol na tv. O sino da matriz tinha acabado de anunciar a hora, eram duas horas da madrugada. A cidade dormia tranquila sob uma chuva rala, e o silencio era rompido apenas pelos cães que ladrava ao menor movimento. Andando pelas calçadas por entre as sombras, sem pressa alguma. Aquela altura da noite só havia um lugar aberto e funcionando dentro da normalidade. Pouco dinheiro no bolso e muita vontade de vadiar, eis aí uma combinação perigosa. Se tivesse sorte encontraria Jose sem expediente. Depois de caminhar muito, entrei numa rua estreita com calçamento de piçarra e caminhando mais uns cem passos vi um carro e duas motos enfrente a casa de muro alto e portão trancado. Fiquei um pouco desanimado, mas não desisti me aproximei da casa e toquei a campainha. Lá dentro havia pouco barulho. Quem veio abrir a porta era uma morena que aparentava ter um pouco mais de 30 anos. Era uma velha conhecida, abriu a porta e depois um sorriso que expressava satisfação em revê-me. Verdade é que eu não dava muita atenção a ela, já tinha a levado para a cama mais de uma vez, mas não era uma de minhas prediletas, preferia sempre as mais novas e ela parecia saber disso e não se importunava muito. Há uma semana atrás chegou a comentar comigo que eu parecia está enrabichado por Jose. Verdade é que tinha uma certa predileção por Jose, tratava se de uma garota que alem de ser bonita era agradável, coisa rara naquele ambiente, ainda que fosse o melhor que a cidade tinha para oferecer.
Dentro da casa uma turma jogava cartas. Conhecia o pessoal de vista, dava para entra. A aposta era de cinco reais a mão, na carteira apenas 20. Olhou envolta para ver quem escolheria dali para passar o resto da noite, logo que ganhasse o suficiente. Talvez perderia o ultimo trocado que tinha, mas estava decidido a me ariscar.
Jose estava ali próximo, colado em Alfredo, um velho comerciante da cidade, que. era com certeza o mais endinheirado da mesa, ale dele estava mais dois rapazes, ou melhor, dois malandros, que viviam quase todas as noites da semana na vadiagem, o incrível é que eles não trabalhavam e nem tinham pais ricos. Nem um dos dois rapazes parecia estar a fim de se divertir com as garotas dali. As meninas estavam abandonadas a um canto, menos Jose que de fez em quando recebia do velho comerciante um pouco te atenção, ela devia esta esperando uma grana alta, pois do contrario já tinha se retirado dali. Junto à morena estavam a dona da casa, Bete e Vânia numa mesa ao ali bem próxima jogando domino para se distraírem, de vez em quando uma se levantava para pegar mais uma cerveja. A dona da casa era uma senhora branca e magra da bunda seca, de cabelos curtos, usava óculos, não era bela, mas tinha um sorriso simpático que agradava a clientela. As outras duas eram jovens, a que aparentava ser mais velha devia ter um pouco mais de 20 anos. Era uma ruiva de pele bem clara, olhos castanhos, cabelos na altura dos ombros, cintura quase reta, uma barriga saliente bem amostra saltando para fora da blusa, vestia mini saia e parecia muito cansada. A outra, era um caso preocupante, será que tinha mais de 18? Talvez não. O problema é que era um tesão de menina e tinha um sorriso todo sapeca. Botei logo na cabeça que se ganhasse o suficiente alem de tomar Jose das garras daquele velho imundo, também pegaria aquela pequena para ter uma farra das boas, mas tudo seria uma questão de sorte. Sorte ou azar? Seria o que tivesse de ser.
Bruno, o mais velho dos rapazes parecia está levando vantagem no jogo. Pedi uma Cuba Libre e demorei um instante analisando a situação, vi que o outro, colega de Bruno, pois eles sempre andavam juntos, parecia esta perdendo e por isso aborrecido.Já o velho absolutamente calmo.Depois de um tempo percebi que dava para entrar no jogo e entrei sonhando com o premio máximo. E o premio máximo me sorriu. Neste instante tive a impressão que estava me desejando boa sorte. As outras ficavam a distancia, até porque nenhum dos clientes parecia querer outra coisa no momento que não fosse jogar. Ganhei duas mãos seguidas, Sessenta reais a mais em meu bolso. A sorte parecia esta sorrindo para mim mesmo e tinha nome, se chamar Jose. Agora estava empolgado, mesmo não ganhando a terceira continuei com o mesmo entusiasmo, não vacilei quando na quarta o velho propôs o dobro. Perdi outra, mas a sorte, e mais outra. Quando pensei que a sorte tinha me abandonado ela me voltou a sorrir voltou a sorrir. Daí em diante a vantagem sobre os adversários só aumentava. Lá pelas duas e meia da manhã senti que já havia ganhado o bastante, cerca de quatrocentos reais, dinheiro de um mês de trabalho. Resolvi que sairia do jogo. Por essa altura os dois rapazes mostravam-se num absoluto mau humor. Havia estragando seus planos de depenar o velho. Acho até que neste momento estava correndo perigo e se eu já deseja passar a noite ali, agora mesmo e que não me arriscaria a sair antes do amanhecer. O velho que o tempo todo mostrava se tranqüilo, embora estivesse perdendo mais que os outros, lançou-me uma proposta.
_Vou te dá uma oportunidade de dobra o que ganhou.
Queria que eu arriscasse tudo que havia ganhado numa só partida. Era tudo ou nada. Agradeci, pois já era bastava aquela quantia. Mas como o velho continuou insistindo, acabei topando, sabia que estava me arriscando de mais, se perdesse o dinheiro, teria que ir para casa liso, correndo o risco de se pego pelos os dois que não me perdoariam por ter estragado seus planos. Acho que o gosto pela aventura suplantou o bom senso. Encarei a parada. E tempo que durou aquela mão sofri a angustia de quem esta fazendo uma tolice, absolutamente desnecessária, mas no fim dei sorte. Somei uma quantia de oitocentos reais, dinheiro de dois meses de trabalho. Não conseguia conter-me de tão emocionado, levantei da mesa e agarrei a garota do velho que a essa altura parecia já ter previsto o que aconteceria. Agarrei a garota e sem cerimônia, lasquei-lhe um beijo. Quando me dei conta do que tinha feito olhei em volta e fiquei feliz em ver que o velho estava rindo, não tinha se aborrecido de maneira alguma. E Jose, numa boa colou-se e mim como se fossemos namorados. O meu troféu sorria para mim e me chamava de sortudo.
O velho pagou a conta e veio cumprimenta-me.
_ A sorte hoje lhe sorriu, aproveite bem, e olhando para Jose, já estou indo, faça companhia ao meu amigo_ e voltando-se para mais uma vez para mim_ como é mesmo seu nome ?
_Mateus.
_Mateus... um belo nome, é de um evangelista
_Sei.
_Tenha uma boa noite Mateus.
Ele sai, a essa altura os dois rapazes já tinham partido, sem que eu notasse.
Jose agora era minha. Na manhã seguinte faltaria ao trabalho outra vez.
O dia amanheceu mais tarde na quinta feira. O sol já estava alto. E a desculpa da chuva não era possível para uma falta, nem mesmo para um atraso. Olhei o céu azul de verão, que bom seria se pudesse ir a praia, mas não podia. Tinha que correr ao trabalho e enfrentar a chefia sem uma desculpa boa para o atraso ou ficar ali mesmo escondido esperando, uma hora mais adequada para sair, sem que fosse notado por algum conhecido. Mas porque não passa o dia ali mesmo, junto com Jose, curtindo a preguiça, ela ia gostar. Já havia feito isso antes. Deitei na cama ao lado dela que dormia quietinha. Uma beleza de menina, nua, corpo descoberto sobre o lençol amassado.

Saturday, October 02, 2010


Mais uma noite, sozinho, cercado de solidão, num cubículo imundo, cheio de teias de aranha pelos cantos e no teto. Nas paredes sem reboco posso conta os buracos que tornam possível ver de um lado a outro, na cabeceira da cama tem um especial, de manhã, quando acordo ainda cedo, posso ver através dele uma cena maravilhosa no quintal ao lado, uma bela jovem em seu banho habitual. A pele clara e limpa, sem uma mancha, sem cicatriz, a carne dura bem distribuída, curva sinuosas. Seios médios, bem rígidos apontando hora para frente, hora para o alto. Ela banha ao ar livre vestida sempre na mesma roupa, uma saia cor de rosa e um tope branco. Não consigo resistir, é só ouvir o barulho da água caindo sobre seu corpo para gruda na parede junto ao buraco que descobrir por acaso. Do buraco dá para ver muita coisa, e dá para ver sossegado. A saia caindo, bem abaixo da linha da cintura deixa ver o rego entre suas nádegas, sem dificuldade nenhuma se percebe que por baixo da saia ela não usa nada, está sem calcinha. O momento mais esperado é quando ela olha para os lados e depois se agacha para lavar as partes mais intimas. Observei que esta garota tem um rosto seco, poucas vezes sorrir. Parece ser uma garota triste, tem sempre uma expressão de cansaço. Não tem um rosto feio, tem apenas uma fisionomia carregada de sofrimento, isso pude perceber, ela não. Em nada se parece com o resto da família, todos parecem habituados à rotina. Ela não. Ela não é feliz. Uma noite destas a vi com um namorado, ele parece ser um pouco mais velho que ela, vem sempre de moto, Reparei que ficam “conversando” em frente à casa da Velha durante horas. A Velha é a dona da vila, uma senhora gorda com cara de poucos amigos, parece ter uma porrada de filhos. Acho que ainda não conheço a metade, alias de nome não conheço um ao menos. Nem o da garota que me enche de tesão eu sei. São todos brancos, talvez sejam todos filhos do mesmo pai. No quintal tem uma criação de porcos, o terreno é grande, os chiqueiros ficam a quase trinta metros de onde estou, mesmo assim, no inicio o cheiro que vinha de lá era insuportável, mas depois de um tempo, parece ter deixado de feder, na verdade, talvez tenha me acostumado. Já vai fazer dois meses que estou aqui, o chão está sujo, nunca foi varrido, tem areia que trago grudado no sapato, baganas de cigarros, palitos de fósforos, embalagens de plástico e papeis amassados que volta e meia atiro contra a parede, insatisfeito com uma merda qualquer que escrevo. Quem me conhece e me ver sabe que não estou bem. Dizem até que não estou girando bem da bola. Mas acho isso tudo um exagero, sei apenas que no momento estou sentindo uma sede danada. Ainda é relativamente cedo e pelo jeito a noite vai ser terrível, me falta água potável, devia ter providenciado uma garrafa quando sai da Eliana. Lembro de uma situação parecida quando era garoto. Tínhamos saído para pescar (eu, meu primo e minha avó), a água do igarapé era imprópria para beber, era salgada, procuramos uma fonte de água doce e por sorte encontramos um tanque cheio de água da chuva. Sei que lá fora tem água numa bacia de pneu, o resto da água que o povo da vila usa para tomar banho, acho que a sede ainda não estar para tanto. Do cubículo ao lado, escuto um barulho de ventilador, que junto com a cantiga dos grilos compõem uma trilha sonora irritante. Acho que a negona do lado ainda esta acordada, mas ela já me disse antes que não tinha água. Talvez a loira do numero dois tenha água e quem sabe ate gelada. Se eu tivesse um ventilador afugentaria as carapanãs e o calor. Nos últimos tempos uma angustia tem me preenchido o peito. Penso que estou ficando velho e não tenho nada, estarei fazendo trinta daqui a alguns dias. E o que tenho de meu? O que tenho feito da vida meu deus? Isso me deixa um tanto inquieto. Dizem as pessoas mais próximas de mim, que eu não devia ter me afastadas de deus. Que deus entre tantos? São eles que se afastam de mim. Continuo no mesmo lugar. Acho que minha angustia vai passa, é só uma questão de tempo. Sei que ando mais triste que o normal, mas é tudo culpa de uma obsessão da qual estou me curando desde o dia em que resolvi mandar aquela mensagem. No momento que digitei aquelas palavras estava embriagado e não sabia o que queria dizer. “Você não é quem eu pensei que era”. Ela me ligou imediatamente. Não atendi. Insistiu. Não atendi. Não queria falar com ela nunca mais. No fundo imaginava que depois voltaria atrás, acontece que um fato fez a coisa se torna seria, na mesma noite perdi meu celular durante a bebedeira e quem achou não quis de maneira alguma me devolver. Assim passaram se dia esperando resgatar o aparelho e nesse período não liguei para ela nenhuma vez. No fim das contas parece que isso acabou sendo a solução para um problema muito serio que era o meu envolvimento com aquela mulher. Será que ela não é mesmo quem eu pensei que era? O fato é que não tenho noticias dela a mais de um mês. “Melhor assim cada um vai pro seu lado”. Ela gosta de ouvi forró e esse me faz lembrar dela. Outro dia um garoto foi pego no rio Amazonas. Ele tinha fugido de casa para ingressa na asfac. Ainda faltava muito para chegar na Colômbia, mas ele já estava bem perto, considerando que vinha de São Paulo. Só não conseguiu porque cometeu uma tolice, tinha nada que deixar escrito para os pais o que pretendia fazer. Se fosse eu, ninguém poderia me impedir, vacinado ou não, sou maior, sou um homem livre. Livre... E mesmo assim fico remoendo minha dor numa rotina miserável. A tolice romântica do garoto fez sucesso na mídia e ele deve está fazendo um sucesso maior ainda com as gatinhas do colégio. Talvez ele não ligue muito para isso se realmente levava a serio sua empreitada. Menino Quixote, ainda não é livre para viver a aventura que deseja. Eu sou. Mas o que faço? Fico preso a uma rotina miserável. Amanhã volto à academia, espero não cometer o mesmo vexame de quita passada, quando fiquei preso debaixo do supino. Minha vista está ficando embaçada, é o sono, se não fosse essa secura desgraçada tinha certeza que dormiria cedo e teria finalmente uma boa noite de sono. Não vou escova os dentes, acabou a pasta e também não vou me masturbar antes de dormi, pelo menos hoje não. Quando eu era menino, me ensinaram a rezar antes de dormir, ainda rezei por algum tempo, mas quando me vi adolescente achei incompatível uma... depois da reza, acabei deixando de rezar.


Ontem tomei outro porre, do bar até a cama foram duas quedas, lembro de tudo, tem pessoas que dizem que esquecem algumas coisas talvez seja verdade. Eu não. Acabo lembrando de tudo. Uma vez apenas esqueci o conteúdo de uma frase, lembro a situação, o momento em que abri a boca e proferi aquelas palavras, mas não sei quais foram. Sei que no momento logo me dei conta do papelão que estava representando, a garota ficou assustada. Ela é garçonete. Esse ocorrido me incomoda bastante, qualquer dia, melhor, qualquer noite, anda sóbrio (e não basta estar sóbrio, é preciso que ela acredite que eu esteja realmente sóbrio) vou ter com ela uma conversa, espero que ela tenha paciência de me dizer o que ouviu de mim exatamente. Acho que naquele momento fui um pouco abusado por isso sou capaz de entender ser ela não quiser conversar comigo. Ontem à noite bebi demais outra vez, quando sai do bar andando pela calçada pisei no lodo e cai vergonhosamente por cima de uma lixeira que para minha sorte era feita de borracha de pneu e estava vazia. Tinha acabado de sai do bar depois de teimar com a Eliana que não eram quatro cervejas e sim três. Tinha bebido desde depois do almoço, já passavam das nove e eu teimando com a dona do bar que estava com razão. Não era uma teimosia levada a serio, sabia que para chegar aquele estado a minha própria custa teria que pagar bem mais que quatro cervejas, teimava porque achava cômico e me divertia com aquilo que para outros poderia parecer aborrecimento. O fim do conversa ela já sabia: aquelas cervejas iam para o caderno como também o almoço, estava duro e o que me safava era o credito. Pois sim, depois de cair vergonhosamente sobre a lixeira e ter sido motivo de riso, marchei rumo a praça em passos largo. Atravessei a Magalhães Barata se dá a menor atenção para os que nela desfilava. Peguei a Barão pela calçada do centro e segui determinado a chegar logo em casa. Depois de seguir uns cem metros pela avenida vi uma figura conhecida. Foi ela que me vi primeiro, vinha de bicicleta no mesmo sentido que eu estava indo. Teria apenas me cumprimentada se eu não peço a ela que parasse. Era uma aluna do programa de jovens e adultos onde eu havia trabalhado a três anos atrás Disse a ela que estava bêbado, sorriu e me disse que dava para perceber.”é uma coisa horrível, me leva em casa”. Achou que não era uma boa idéia, mas eu insisti e acabou aceitando. Já tinha percebido que ela não estava só, no entanto não estava dando a mínima. Ela estava com uma turma bem jovem, uma garotada mais ou menos na da idade dela. Sabia que ela tinha dezoito para dezenove. Montei na garupa da bicicleta dela.

A vila já estava dormindo apesar de ser cedo dá noite. Pelo menos era cedo para mim, um vadio acostumado com a madrugada. Que estavam todos dormindo, era ótimo, podia tomar um banho sossegado no quintal, inteiramente nu, como não era possível em outras ocasiões. Convidei a garota para conhecer meu apertamento. Ela me disse que era bacana, achei graça. Bacana! Esta bem... um cubículo miserável deste, comentei já pegando a toalha que estava sobre o espelho da cama, tirei a camisa e marchei para o banho sem perguntar a ela se vinha comigo, se esperava eu voltar ou se ia embora, ela decidiu vim atrás e quando cai com metade do corpo dentro da bacia ela já estava lá para me ajudar a levanta. Ainda não tinha tirado a bermuda e fiquei com ela molhada. De pé tentando me recompor pedi licença para tirar a roupa, sem problema, ela me disse. Não era o primeiro homem nu que veria completou com uma voz tranqüila que me deixou a vontade para arrear a bermuda embaixo. Só não tirei a cueca por que não estava usado, não costumo usar cuecas quando estou de folga. Tomei meu banho calado com ela me olhando também calada. Terminado o banho me enrolei com a toalha que havia deixado pendurada numa estaca e caminhei em direção ao quarto. Chegando aqui dentro cuidei logo de procura um calção para me vestir e terminei de enxugar meu corpo me deliciando com o sorriso dela. Era uma ruivinha magra e pálida, com um sorriso bonito, dentes brancos, rostinho de menina sapeca, corpo de manequim, tipo aquelas modelos que nos dá pena, agente imagina logo que as coitadinhas passam fome pra ficar daquele jeito que no fim das contas nem achamos bonito. Sou como a maioria dos homens, não gosto deste tipo, mas ela tem um encanto, acho que é o mesmo que um dia vi numa gordinha, é um jeito de menina sapeca. Ela me parece se cheia de vida, vive de uma forma irresponsável, coisa que eu admiro nos jovem. Não sei porque ela não foi logo embora, eu em nenhum momento sugeri que queria transar com ela, não nego que queria, realmente queria, mas não naquele momento poderia ficar para outro dia. Deitei na cama de peito para cima. Ela ficou ali próximo mexendo nos meus livros que estavam aleatoriamente espalhados sobre uma prateleira improvisada. Perguntei se ela gostava de ler, me respondeu com displicência que não. Depois de um longo silencio, virei na cama e disse que queria dormir, se quisesse ficar era só colocar a bicicleta para dentro e fechar a porta ou se quisesse ir embora, fechasse e empurrasse a chave para dentro por baixo da porta. Ela, então, me disse que tinha pensado... Mas não completou a frase. Respondi que queria, mas não naquele momento, pois precisava dormir. Fiz aquilo de sacanagem. Queria brincar um pouco com ela. Era verdade que eu estava cansado, mas não o bastante para não dá conta de trepar. Estava mesmo era com pouca vontade. Fiquei quieto como quem estava doido pra dormi. Escutei ela acender um cigarro e depois de longo silencio me disse que sairia e me deixaria trancado até quando ela voltasse. Não dei muita importância ao que disse e só me dei conta que ela estava fazendo quando ouvi ela trancando a porta pelo lado de fora, quando quis protestar já era tarde, mas também não deixei que aquilo perturbasse o meu juízo por muito tempo, estava embriagado de mais para me preocupar com qualquer outra coisa que não fosse Julia. Tinha passado o dia pensado nela, estava doendo muito o ferimento que aquela idéia me causava, imaginar que Lea neste momento poderia está com outro era uma tortura cruel de mais. Não demorei muito a dormir. Naquela noite, depois de sonhar um monte de bobagens sem nexo algum, sonhei com Julia. Ela vinha de bicicleta em minha direção com o aquele sorriso bonito que só ela sabe sorri e só teve tempo de dizer “oi”. Acordei com a claridade do dia dentro do barraco o barulho dos bichos no quintal e calor insuportável derretendo meu corpo como se eu fosse um picolé. Do meu lado, para minha surpresa, a garota quer havia levado minha chave dormia feito um anjo. Estava vestida numa das minhas camisas. Pernas levemente descompostas. Não era realmente um mulherão, mas sim umas belas jovens, magra e delicada, e certamente, deliciosa.

A realidade não é o que é, mas o que parece ser, e o que parece ser é sempre mutável. Foi sabendo disso que ela jogou tudo para o alto e saiu da gaiola em busca de viver a liberdade. Sem saber que já era livre. Livre, porque não havia jeito de não ser. Um dia disseram a ela que mesmo na prisão si é livre, pois cada ser humano está abandonado à própria sorte e, quando consciente, é o único responsável por seus atos. Somos livres porque não há possibilidade de não sermos. Até quando, aparentemente, deixamos que decidam por nós, ainda assim seremos livres porque não decidiriam se não deixássemos.
À noite, na solidão, olhando para o teto lembrava da filha com saudade.Não deixaria que ela crescesse imaginando que a mãe era uma desajustada, mas também não voltaria atrás, não dava para viver ancorada no cais com tantos mares para navegar.O futuro provaria que estava certa ou então que não precisava provar nada a ninguém.
A opinião do outro nos intereça apenas quando nos sentimos fracos. Quando temos a certeza de que somos fortes ela nos tem pouca importância.Quando precisamos que os outros nos convençam de que estamos bem é porque não estamos. Pode até parecer que estamos, mas não estamos porque não nos sentimos.
A opinião pública condena as atitudes daqueles que fogem dos padrões, daqueles que deixam de seguir a linha reta que lhe foi traçada. “Lá vai ela por caminhos tortos, está sem rumo, perdeu os sentidos, enlouqueceu”. Dirão tudo isso e um pouco mais. Não são capazes de ver que o caminho reto que a infeliz trilhava é que não tinha sentido, e que só agora depois de cometer a dita loucura é que sua vida passou a ter objetivos, podem ainda não estar bem claros, mas ela os tem. E o melhor de tudo é que são genuinamente seus. Foi ela que os fixou como alvos a sua frente. Os caluniadores irão dizer que alguém lhe fez a cabeça, pôs idéias malucas em seu juízo, mas ela sabe que não foi nada disso. Foi na solidão observando os pássaros que ela descobriu que também podia voar. Foi assim que uma águia abriu as asas e aceitou a plenitude de um céu sem limites.
Ela partiu em busca de fazer com suas mãos o seu próprio destino, deixando para trás um coração partido. Ele ficou para trás remoendo uma paixão misturada com ódio. Perdeu um pássaro que tinha prendido na gaiola. Talvez o tempo curasse a ferida. Como podia, um homem bom, cheio de responsabilidades, que lhe tratava muito bem, ser vítima de tamanha crueldade? Seus dias agora passavam vagarosamente, a vida passou a ser um peso que era obrigado a arrastar. Todos lhe eram solidários, comoviam-se com a dor do infeliz e fazia severas censuras, aquela que ele ainda amava. Outra mulher ele poderia encontrar, mas não acreditava na possibilidade de ser feliz outra vez. “O tempo é o melhor remédio”.Todos diziam. È um remédio amargo, mas cura.
A vida é um teatro, estamos no mundo para encenar uma estranha peça que ninguém escreveu e a cada ato aprendemos a representar cada vez melhor. Julia sem duvida, desde a infância, tinha talento para o gênero trágico. Ela tinha tudo para ficar acomodada, se sentir feliz, mas não, aquela não era a vida que havia sonhado. Tinha apenas dezoito anos, sua vida não podia estacionar ali, alem do mais... Tinha certeza que aquele não era o homem da sua vida, um dia imaginou que era, mas o tempo a convenceu que não. Era sem duvida uma criança quando se entregou aos cuidados dele, se foi por amor, por necessidade ou outra coisa quem de nós vai ter certeza? Sei apenas que a conheci e confesso que ainda não sei se foi uma coisa boa que me aconteceu. Ela surgiu na minha vida num momento em que tudo ia relativamente bem. Havia construído uma rotina e estava satisfeito, naquele momento nada precisava mudar, assim eu pensava, embora muitos em torno de mim não pensavam o mesmo, mas tudo bem, o que importa é dizer aqui que ela surgiu com seu encanto, em passos de bailarina trazendo para o meu mundo o seu charme e seu jovialidade. Vi logo em seus olhos uma ansiedade para viver. Fiquei fascinado com a beleza que me embriagava o espírito, era a encarnação de Vênus, nem mesmo um renascentista pintaria tão bem. Passei a sonha com possibilidade de me perde naquele paraíso.
Por muito tempo acreditei que o mais certo a fazer erra evitar, mas na pratica todas as minhas ações acabavam por nos aproximar cada vezes mais Era difícil resistir, Quando me vi estava brincando com o perigo, trocando socos e pontapé em praça publica. Hoje a distancia entre nós é muito grande, alem dos quilômetros de estrada que nos separam, existem duvidas e ressentimento que por mais que a gente tente não consegue superar facilmente.